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Maria da Fonte
A história de Portugal regista no século XIX, concretamente no ano de 1846, senão uma das mais relevantes revoluções, talvez a revolta mais popular e enigmática do período contemporâneo, criando uma personagem mitigada entre o romantismo poético e a reação naïf, com a plasticidade bastante e uma considerável elasticidade, capaz de permitir a construção de um símbolo para todo um império a partir de uma figura do povo: a Maria da Fonte.
A Póvoa de Lanhoso é o berço da revolta e da sua principal figura, começando a divergir na história de Portugal quando se analisam as causas e razões dos levantamentos populares, ou ainda mais, de forma quase insolúvel, quando se tenta consubstanciar a identificação do nome ou cognome Maria da Fonte
Nesta revolução, a principal luta centrava-se na justiça e igualdade de tratamento, exigindo-se a aplicação das novas leis de forma idêntica para todos, independentemente do seu estrato social ou condição económica, no que a contestação às Leis da Saúde (que proibiam o enterramento no interior das igrejas), ganham relevância pelo facto de não serem aplicadas de forma transversal, mas sim de forma “seletiva”, até pela inexistência de cemitérios.
A reação das mulheres ao zeloso exercício das autoridades administrativas e policiais, na dependência do Administrador do Concelho, que prendem 4 das mulheres que participaram num enterramento tumultuário na Igreja de Fontarcada, em finais de março de 1846, vai, nas palavras do juiz, convocar mais de 400 mulheres, ao toque dos sinos a rebate, para o assalto à cadeia e libertação das companheiras que ocorrerá dias depois.
A Revolução da Maria da Fonte, que na Póvoa de Lanhoso termina com o afastamento do Administrador do concelho, alastra-se a toda a região (ficando também conhecida como “Revolução do Minho”) e a todo o país, culminando na demissão do chefe do Governo (Costa Cabral).
Não obstante a Maria da Fonte ainda não ter sido identificada, no que os documentos oficiais conhecidos são omissos, essa mulher que mais se terá destacado nas ações tumultuárias, será glorificada como o principal símbolo de luta por justiça e igualdade em Portugal.
A Estatuária
À Maria da Fonte serão erigidas várias estátuas. A primeira no centenário da Revolução Liberal (1820-1920), com a estátua de Costa Mota (Tio) em Campo de Ourique (Lisboa).
Na Póvoa de Lanhoso, com diligências em curso já desde 1925 (e que o Golpe Militar de 1926 e depois o Estado Novo impedem de concretizar), só em 1978 com escultura de Jorge Ulisses (e depois em 1996, a partir do imaginário local e de uma pintura de J. Augusto Távora) esse desejo será concretizado.
Quem foi a Maria da Fonte?
No que respeita à identidade da Maria da Fonte, que de figura enigmática passará a assumir outros contornos, após a edição em 1885 da obra titulada por Camilo Castelo Branco com o nome “Maria da Fonte”.
A Póvoa de Lanhoso, mais do que responder a Camilo Castelo Branco, vai procurar separar a ficção camiliana da realidade factual, que, desde 2015, alunos, professores, investigadores e população em geral podem aceder no Centro Interpretativo Maria da Fonte, onde podem encontrar os registos e os documentos que permitem ajudar a responder a esta questão.
O Centro Interpretativo Maria da Fonte
Conhecer a história da Maria da Fonte, das mulheres às suas circunstâncias é hoje possível através do trabalho desenvolvido no respetivo Centro Interpretativo, que permite dar a conhecer o papel desempenhado pela Maria da Fonte e pela Póvoa de Lanhoso no contexto das profundas transformações operadas em Portugal no segundo quartel do séc. XIX.
O centro temático é, de facto, a figura da Maria da Fonte, que na primavera de 1846 solta um grito de revolta contra a forma como a governação pretendia introduzir as alterações que pretendiam guindar Portugal para as novas realidades políticas e sociais em expansão por toda a europa e todo o mundo liberté, egalité, fraternité, as novas bandeiras liberais, mas ignorando o sentir, a realidade e diversidade próprias das comunidades e populações, fazendo tábua rasa de tradições seculares.
A partir da Maria da Fonte é possível identificar todo um conjunto de circunstâncias, de factos, de dinâmicas que pela sua complexidade elevam a figura da Maria da Fonte a um nível tão enigmático quão controverso, tanto factual quanto lendário.
No Centro Interpretativo Maria da Fonte, o visitante pode encontrar de exposições etnográficas e documentais a elementos de uso quotidiano no século XIX a elementos escultóricos do século XX, fazendo entrecruzar a pedagogia dos serviços educativos; de um auditório com capacidade para uma plateia de 50 espetadores aos jogos de conhecimento a partir de plataformas digitais, para além de todo um manancial de opções para o conhecimento do território da Póvoa de Lanhoso e da região do Minho em cujo coração está localizado.